Democracia digital é um tema excitante. Mas nem por isso todas as análises precisam parecer escritas por adolescentes apaixonados.
Na contramão do otimismo que domina grande parte dos formadores de opinião da web, surge um livro e uma crítica.
“The Myth of Digital Democracy” (O Mito da Democracia Digital) foi escrito pelo professor de Ciências Políticas da Arizona State University, Matthew Hindman.
Neste post, Hélio Teixeira faz uma crítica constestando o livro. Mesmo sem ter lido o livro, vou entrar no coro contra os argumentos expostos resumidos pelo Hélio.
Dividi minha constestação nos tópicos abaixo:
1) O que é discurso político?
Para ser válida a afirmativa de que a Internet não amplia o discurso político entre os cidadãos, é preciso definir o que vem a ser discurso político. Para se engajar o cidadão precisa mesmo conhecer o cenário macro político nacional? A percepção de que os direitos básicos dos cidadãos (saúde, segurança, transporte, educação etc.) não atendem às suas expectativas já não seriam suficientes para provocar melhorias? A compreensão do cenário político nacional e internacional é para poucos, e acredito que sempre será assim. Os cidadãos já contribuem muito apenas desejando e lutando por seu bem estar em convívio com os demais. Para isso é preciso conhecer seus direitos e ter educação mínima para reivindicar, expor opinião, se associar.
2) Precisamos de uma referência.
Ao afirmar que a Internet é um ambiente mais democrático, precisamos saber: mais democrático
com relação a que? Entendo que seja mais democrático que as outras mídias (TV, rádio, jornais e revistas), pois possibilita o
diálogo. Também possibilita que muitos pessoas sem recursos se manifeste, crie seus próprios meios de expressão. Possibilita
que as pessoas se reúnam em torno de idéias e interesses comuns, e que estas opiniões ganhem grande visibilidade. Esta é a ótica de esfera pública defendida por Habermas antes do advento da mídia de massa e da propaganda, quando segundo o autor, teria perdido suas funções primárias de discutir as questões do mundo da vida. Habermas defende que conversas cotidianas nas antigas praças públicas burguesas resolviam questões políticas de ordem maior.
3) Visão Global versus Visão Local.
Vamos lembrar os estudos de Jane Jacobs, e mais recentemente Steven Johnson, que defendem
que uma comunidade desenvolve um grau de inteligência superior, mesmo que os membros não tenham uma visão global, tampouco
política. Os fluxos de informação local que correm nos espaços públicos – acumulados – dão às comunidades uma inteligência incapaz de ser percebida no nível do indivíduo. Para isto basta que os membros recorram à interação, basta que haja comunicação. Jacobs defende a importância das calçadas no desenvolvimento de uma cidade. Então, num mundo que se comunica cada vez mais pela via interconectada, quais seriam as “calçadas digitais”? Claramente seriam as comunidades online, redessociais e demais espaços de interação.
Outro argumento para defender ideia semelhante já foi desenvolvido por Yochai Benkler, que ao criar o termo esfera pública interconectada, toma emprestado o conceito da “mão invisível” de Adam Smith para explicar a auto-regulação da web. Mirando seus objetivos cada um alcança também os objetivos coletivos. Política pura. A essência das críticas à democracia digital é clara. A Internet ainda não é para todos, e jamais será universal, ou trará uma salvação universalista. Somos, dentro e fora da rede, formados por pequenos grupos. A sociedade é, e não parece que deixará de ser pluralista. Mas e daí? Não queremos ser iguais ou ter as mesmas soluções. Queremos soluções para problemas diferentes.
Serviços como Patient Opinion e My Bike Lane (que nem é uma iniciativa governamental, mas de um único indivíduo) são ótimos
exemplos de que as redes podem aumentar o poder cívico dos indivíduos. O motivo? Mais transparência, fácil participação e grande alcance e visibilidade.
4) Exclusão digital ou hegemonia das classes de maior renda.
É um fato. Assim como a televisão em cores na década de 60 era restrita a poucas famílias, e em pouco mais de 10 anos se difundiu completamente. Hoje mesmo moradores de rua possuem celular. É questão de tempo até que o computador e o acesso à web chegue às classes menos favorecidas. Isso não significa que as mudanças positivas provocadas por um mundo mais interconectado não sejam reais.